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Enquanto o mundo celebra o Dia Mundial da População em 11 de julho, a Espanha encara um cenário cada vez mais sombrio: a taxa de natalidade despenca a níveis históricos, ameaçando o equilíbrio social e econômico do país nas próximas décadas. De acordo com o último relatório da fundação Funcas, entre 2008 e 2023 o número de nascimentos caiu 38% — o terceiro maior declínio na União Europeia, atrás apenas da Letônia (–41%) e da Grécia (–40%).



O caso mais dramático vem da Cantábria, que lidera o ranking negativo com uma queda de 49% no número de nascimentos — a mais acentuada entre os 220 territórios europeus analisados. Outras regiões espanholas como Astúrias (–45%), La Rioja (–43%), Ilhas Canárias (–42%), Castela e Leão (–41%) e Galícia (–40%) também mostram perdas alarmantes. Apenas Baleares (–31%) e Múrcia (–34%) apresentam uma desaceleração um pouco menos severa, ainda que expressiva.

Esse declínio não é um episódio isolado. O país, que já chegou a registrar mais de 600 mil nascimentos anuais até o fim dos anos 1970, hoje mal ultrapassa os 300 mil. Mesmo em 2008, pouco antes da crise econômica, houve um “mini boom” com cerca de 500 mil recém-nascidos — um pico que seria rapidamente substituído por uma queda contínua iniciada em 2009.

O relatório de Funcas destaca que 15 das 17 comunidades autônomas da Espanha, além de Ceuta e Melilla, estão entre as 50 regiões europeias com maior recuo da natalidade. Embora a tendência atinja 22 dos 27 países da UE, somente quatro deles viram suas taxas de natalidade crescerem no período: Alemanha (+2%), Luxemburgo (+12,9%), Chipre (+11,2%) e Malta (+11,2%).

Segundo María Miyar, diretora de estudos sociais da Funcas, a Espanha está prestes a viver uma “transformação demográfica sem precedentes”, com impactos diretos no mercado de trabalho, no sistema previdenciário, na rede de saúde e no modelo de cuidados com idosos. A retração nas faixas etárias mais jovens afetará o consumo, a demanda por moradias e exigirá uma reestruturação total da rede educacional. A própria lógica da cidade e do investimento público poderá se transformar, priorizando cada vez mais serviços voltados para uma população envelhecida.

Além disso, o fenômeno ultrapassa fronteiras. Países da América Latina, Norte da África, Oriente Médio e até da África Subsaariana — historicamente marcados por altos índices de fecundidade — também começam a registrar quedas notáveis. Funcas alerta que, se as tendências atuais se mantiverem, a população mundial pode começar a encolher ainda antes do fim deste século, algo inédito na história humana.

Nesse contexto, a Espanha se vê em meio a um verdadeiro furacão demográfico: a qualidade de vida, o avanço educacional e a estabilidade econômica não têm sido suficientes para convencer as famílias a terem filhos. O desafio, portanto, não é apenas social, mas estratégico. As empresas, o Estado e a sociedade civil precisarão reformular suas políticas — desde incentivos à natalidade até novas abordagens para a imigração — se quiserem manter viva a dinâmica econômica e preservar o equilíbrio geracional.

A crise demográfica espanhola já não é um problema do amanhã: ela é uma urgência do presente.





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